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Blog de Clovis


SEM MEMÓRIA NO NATAL

 

"Homem, de aproximadamente 30 anos, de cor branca, com cabelos pretos e 1,75m deu entrada no Hospital em outubro do ano passado. Ninguém sabe quem ele é. Entre médicos e enfermeiras é conhecido como 'paciente 808'. Foi submetido a um sério tratamento, em virtude de seu gravíssimo estado de saúde. No braço direito, ele tem uma tatuagem onde se lê 'Nicolas e Micael: papai ama vocês'. No braço esquerdo, há o desenho de um peixe e um polvo. Sofre de amnésia."

A notícia do jornal pede encarecidamente a quem o reconheça pela foto, que venha com informações. Ele mesmo não sabe quem é. Neste momento, ele está alheio ao movimento que farfalha no hospital, com enfermeiras decorando os corredores de luzes natalinas, arranjos de bolas coloridas e flores artificiais.

Suas lembranças de outros natais estão congeladas até o exato momento em que um evento devastador paralisou a sua capacidade de se lembrar de pessoas, de lugares, de festas anteriores. Essa alegria que tiramos do bolso (onde ela esteve guardada pelos onze meses não-natais), agora ressurge renovada e nos esforçamos pela harmonia.

Quando despertar do tratamento e retomar suas funções de gente, o homem buscará identificações e não encontrará sintonia com o que lhe vai em redor. A cor da parede, o formato do quarto, os cheiros, os ruídos, a luz que entra pela persiana. O Natal não lhe penetrará emoção a dentro.

Depois, virão as pessoas. A enfermeira o cumprimenta como a um amigo antigo, o rapaz das refeições no carrinho e o médico (tão jovem, ainda!) que, agora, pode perguntar com alguma garantia de obter respostas.

A todos, quem sabe, o homem do quarto 808 desejaria fazer as mesmas perguntas. Alguma tragédia pessoal roubou dele a sua linha do tempo, embaralhando o passado e o confinando num 'presente' sem forma nem conteúdo.

Passa pela porta do seu quarto a acompanhante do paciente do quarto vizinho. Ela sabe da sua  perda de memória e lamenta não ter ocorrido o mesmo consigo. Igual a muitos outros seres humanos, esta também não deseja o Natal, não gosta de suas cores e cheiros e brilhos.

Esse tempo, que em muitos reinaugura a infância, a torna triste e a angústia que sente parece não ter sentido real. Obrigada a conviver diariamente com tantas amargas lembranças que esmagam a sua pequena alma, ela lança sobre o paciente 808 um olhar de inveja. Ele não percebe.

 



Escrito por clovisblog às 11h14
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