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Blog de Clovis


Uma tragédia sanjoanense

30 de abril de 1968, à tarde. A mulher desce correndo a rampa que vem da garagem de sua casa até a calçada, na rua Getúlio  Vargas. Ela vem gritando com as mãos na cabeça: "meu Santo Antonio!", "meu Santo Antonio!" São os seus gritos desesperados que nos chamam a atenção: Pistelli e eu estamos na calçada oposta, andando calmamente; estou lendo para ele a crônica "Mudança", do Paulo Mendes Campos, e estávamos rindo.

Somente quando passamos defronte ao portão é que nos deparamos com a tragédia. A mulher nem se importa se o trânsito naquele momento lhe abre espaço - ela se projeta sobre o filho de três anos que está caído no asfalto. O menino acaba de ser atropelado e está ali, misturado com suas roupas parecendo uma trouxa que vai à lavanderia. O atropelador fugiu e nem mesmo eu ou o Pistelli sabemos dele.

O impacto dessa cena é muito forte para nós dois e nem por um segundo pensamos em interromper a nossa caminhada, tão acelerado está o nosso coração e repleto de gritos da mulher está o nosso ouvido. Enquanto nos distanciamos mudos daquela cena, a mãe desesperada abraça o filho já morto, na tentativa insana de trazê-lo de volta. Neste momento, é o pai do menino quem desce a rampa da garagem e também se joga sobre a tragédia viva ali na sua frente.

Já a meio quarteirão dali, vou explicando isso tudo ao Pistelli. De ouvido aguçado, ele pode criar suas proprias imagens a partir do que ouviu naqueles segundos infinitos de tempo. Logo, chegamos a sua casa e entramos sem ligar música, como fazemos de costume. Beethoven, Ravel e Chopin ficam bem quietos em seus sulcos nos Lps.

Já faz tanto tempo que presenciamos este fato. Tínhamos apenas 16 anos, mas ele sempre me volta à memória como se quisesse se resolver em minha vida. "Viver, filosofei pela rama, é colecionar ruínas", afirma o escritor naquela crônica que eu lia no momento da tragédia.

Não sei dizer como sobreviveram os pais do garoto morto no asfalto da rua Getúlio Vargas, não procurei por notícias posteriores. Como sobreviver a fatos assim? Viver é colecionar tragédias, corrijo Paulo Mendes Campos, pretensiosamente...



Escrito por clovisblog às 12h00
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