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Blog de Clovis


Presentes de Natal

A menina - 13, 14 anos -, fica um tempo diante das vitrines escolhendo presentes de Natal para si mesma. Ela não sabe querer nada muito facilmente e seu coração se divide entre vestidos com brilhos, um kit importado de cosméticos para o cabelo e esses telefones celulares com rádio e televisão.

A calçada das lojas tem muita gente animada com a véspera do Natal e ela vai esbarrando em gente que besunta o vidro das lojas com suas mãos ávidas de alegria. A cidade tem música no ar, vinda de uns altofalantes em cada esquina, e também luzes coloridas que se enrolam nos troncos dos flamboyants.

Cansada de olhar e de desejar, a menina se põe à mostra mais perto da sarjeta e logo um desses SUV estaciona com o motor ligado. Ela sabe que foi escolhida e facilita a aproximação: chega à janela do veículo e fica ouvindo as frases do motorista, que se supõe sedutor. Seus ouvidos estão ali, mas as palavras que saem daquela boca soam como em câmera lenta, em sons embaçados que ela apenas vai meneando com a cabeça sem adivinhar seus significados.

O veículo roda por bairros ainda inacabados, onde o escuro e o silêncio podem garantir essa privacidade urgente que o motorista anseia. O interior da cabine se transforma num efêmero centro de prazer onde mãos, lábios e pernas se misturam com palavras pela metade, suor manchando camisas de linho e gemido de dor e êxtase. Com a ansiedade em paz e o coração pulando em recém-taquicardia com o presente que acaba de se dar, o homem abre a carteira e acerta o encontro.

De volta ao centro, ele a deixa na mesma sarjeta das vitrines. Sua SUV desaparece em direção ao lado nobre da cidade, onde uma festa de luzes e assados o aguarda para o seio da família. 

Em pé na calçada, diante de suas lojas prediletas, a menina volta a desejar indecisa. O relógio em seu pulso a desperta do sonho e ela corre para casa - receber o Natal na avenida não é o seu plano. Sua pequena silhueta vai se diluindo na noite à medida em que se afasta das luzes, rumo à periferia. Longe, agora, a garota põe a chave na porta e a abre com cuidado, sem fazer um ruído. Atravessa o primeiro cômodo, deixa sobre a TV parte do dinheiro arrecadado. Sua mãe é quem vai saber usá-lo melhor.

No quarto - uma cama de solteiro e um outro colchão ao lado, no chão -, é onde sua mãe está, sonolenta, recostada na cabeceira da cama. Ela segura seu neto de 11 meses, uma chupeta azul na boca, pele de pêssego. Muito carinhosamente, a menina pega o filho em seus braços e se senta ao lado da mãe. Trocam olhares gentis. Ao passar de um colo ao outro, o bebê desperta e oferece aquele sorriso impossível de se descrever.

A jovem mãe o põe sentado em suas pernas e retira de sua bolsa colorida o pequeno presente de Natal que pode comprar para ele; e olha por um longo tempo, profundamente, em seus olhos.



Escrito por clovisblog às 13h11
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