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Blog de Clovis


Crianças reinando em nossas vidas

Aquela mulher vai chegando devagar no artista que se exibe na feirinha dominical de Poços de Caldas. Ela não sabe muito bem se 'aquilo' a sua frente é mesmo uma estátua de barro ou um ator com grande controle sobre seus movimentos: o rapaz está ali parado faz tempo, inteiro coberto por lama, que o sol já transformou em placas que vão se soltar de sua pele a qualquer momento...

Antes de confrontar a verdade, olhando nos olhos da estátua, ela me pede algumas moedas para depositar, em reverência, no chapeu do artista. A senhora está completamente mesmerizada pela performance teatral - a criança que ela guarda em seu coração está perplexa com aquela Arte ao vivo, ao ar livre, para quem a quiser ver.

Logo após jogar as moedas no chapeu, a mulher encara o artista e fica bebendo aquela surpresa em forma de "vamos brincar de estátua?". Ele, sensível, percebe o que está fazendo por ela e não se nega: faz uns gestos que parecem uma dança desconexa, sem torcer um milímetro sua musculatura facial. Esse seu esforço fortalece a sua condição de imagem de barro e desperta na admiradora anônima imagens de bonecas mecânicas, que talvez já a tenham encantado anteriormente.

Quando ela se percebe objeto da dança do rapaz, do seu carinho e da sua atenção, os seus olhos se enchem de lágrimas. Ela voltou a ser criança. Por inteiro, em cada fremor do seu corpo de 84 anos, vividos duramente. Infância mesmo que é bom, ela não teve. Seu corpo magrinho, naquela época de ser menina, serviu a muitas famílias mineiras e sanjoanenses como empregada doméstica desde os 7 anos de idade.

Então, ela não se conteve e se aproximou do seu príncipe. Em perfeita sintonia com o que está acontecendo naquele momento, o artista de lama se deixa aconchegar e se move num volteio que a encaixa sob o seu braço direito. Alguns visitantes da feirinha também percebem esse momento mágico para ambos e param para ver aquela cena tão singular - ao invés de ali estar uma criança real, que naturalmente se encantaria com as supresas do mundo, está esta mulher que jamais abandonou a criança que desejou ser. Ela posa para algumas fotos. Sua expressão facial mistura muitos sentimentos bons.

Quando o encanto termina, nós não nos cansamos de aplaudir e agradecer o artista. Em estado de graça, minha mãe segue pelos meandros da feirinha poçoscaldense com um brilho novo nos olhos. Os muitos objetos que ali estão à venda não se comparam ao valor da lição por ela oferecida: nunca se furtar a expor essa criança que vive e reina em nossas vidas. E que, em muitas vezes, fica trancafiada solitária, brincando com as memórias do passado, sem a menor chance de sair, de respirar novas experiências, de conhecer gente nova. Ou estátuas novas.



Escrito por clovisblog às 11h37
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