Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO JOAO DA BOA VISTA, CENTRO, Homem, de 56 a 65 anos, Portuguese, Arte e cultura, Cinema e vídeo
MSN - clovisvieir@hotmail.com



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
Blog de Clovis


Madeira, pó-de-serra...

Fico me perguntando como me interessei por Arte e Cultura crescendo num mundo tão diverso destes.
Havia dois flamboyants na esquina onde funcionava a fábrica de carrocerias de meu pai. Um deles, na rua Padre José; o outro, na rua Cons. Antonio Prado ainda com paralelepípedos e guias de sarjeta que os meninos da 'turminha' limpavam periodicamente. Quando as árvores floriam, nós escalávamos seu tronco e galhos para colher aquelas flores vermelhas com pontos amarelos. Seu destino certo eram os túmulos da família, já que o mês de novembro traz o dia dos mortos e suas saudades.

Mas no interior da fábrica, a grande brincadeira era o monte de pó-de-serra! Esse material ia se acumulando com a faina da serra circular e o seu perigoso movimento de cortar madeira grossa. Chegava um momento em que havia tanto resíduo encostado na parede de tijolos pintados de branco, que não tínhamos saída: o melhor a fazer era se jogar nele e afundar o corpo naquele colchão macio e poeirento de madeira pulverizada.
Papai era mais tolerante e entendia a graça do filho e seus amigos desmanchando em risos aquele acúmulo de pó grosso. Tio Ramiro é quem passou a vida sendo um homem sério e a sua sizudez nos incomodava até nestes momentos de lazer grátis, quando nos dava broncas por espalharmos por ali aquele conteúdo.

Nos outros dias, queríamos encontrar no chão da fábrica os toquinhos que sobravam dos cortes na madeira e sua infinidade de formatos. Era com eles que construíamos casas, caminhões, bichos... esses brinquedos que a imaginação constroi e ela mesma faz a manutenção dos enredos que nos ajudam a atravessar o dia vivendo uma infância muito divertida e boa e simples.

No restante do tempo, a realidade era bruta no dia a dia de trabalho. A fábrica produzia um incômodo e amplo ruído de cortar, serrar, aplainar, perfurar e montar madeira de várias cores e aromas. Dali, saíam prontas carrocerias para caminhões enormes que vinham até de outros Estados. No barracão sujo e com teias de aranha nas quinas das paredes também eram feitas caixas e objetos de todos os tipos, e encomendas especiais como alguns móveis exclusivos. Os funcionários do meu meu pai eram sempre gente jovem; eles acabavam se tornando nossos amigos e iam conosco à Piscina do Boi em alguns finais de semana para nadar e comer aquelas comidas gostosas que mamãe fazia.

Eu poderia muito bem ter me especializado em trabalhar com madeiras, colas, tintas... Eu poderia ter me tornado um desses empresários que enriquecem a custa de muito suor e de seriedade. Houve, então, algum outro caminho que me seduziu mais. Talvez tenha sido a leveza com que papai sempre entendeu a Vida. Quando a fábrica foi fechada, ele comprou uma perua Veraneio verde e se tornou motorista de táxi. Até hoje, muitos amigos meus se lembram dele como aquele sujeito divertido, que dirigia muito bem e que tornava a viagem mais gostosa do que a chegada ao destino final.

Apesar do sucesso da fábrica de carrocerias, meu pai nunca foi um homem rico. Quem o via de chinelos e de camisa aberta na praça Gov. Armando Sales, a qualquer hora do dia, nem imaginava o homem doce e inteligente e criativo que estava ali. Quando ele se foi, nunca vimos tantas flores e coroas e manifestações de pesar. A amizade que ele deixou por aqui, sim, era a sua riqueza.



Escrito por clovisblog às 10h46
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]