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Blog de Clovis


CESTAS DE NATAL AMARAL


Segunda metade da década de 1950. O caminhão-baú das Indústrias Amaral para em frente à casa. No interior daquele lar, a família percebe a chegada do veículo. Os vizinhos também descobrem que ele ali estacionou e já sabem quem chegou...

Se você tem 50 anos, ou mais, não precisa adivinhar: acaba de chegar a Cesta de Natal Amaral! Durante todo o ano aquela família pagou, mês a mês, o carnê daquele mimo. Agora que ela está na sala principal, todos concordam que vale cada centavo investido.

Quando a cesta é aberta, quase não se consegue segurar a ansiedade e muitas mãos mergulham em seu interior para descobrir todos aqueles tesouros envolvidos em papel celofane picado e em palha também picada, que protegeram o seu conteúdo durante a viagem.

Muitos saudosistas ainda têm em casa aquela cesta de vime, grande e funda, muito bem construída, forte, que servia como baú no restante do ano para guardar quaisquer outras coisas da família como tecidos e roupas, livros, álbuns de fotos.

 

DELÍCIAS

O que vinha no interior da cesta? Vinhos (alguns, importados), champagnes, licores, groselha, refrigerantes... Pacotes de castanhas portuguesas, de nozes, de uvas passa e ameixas secas. Panetone, barras de torrone, latas de doces em calda, pacote de bombons Sonho de Valsa, bolachas acondicionadas em latas decoradas, mistura pronta para bolo e Mandiopan! Enfeites para a porta de frente, presentes para as crianças...

Num tempo em que supermercados eram novidade, a Cesta de Natal Amaral é que supria de guloseimas natalinas os lares de muitos brasileiros, nas décadas de 1950 e 1960. É claro que cada família decidia o tamanho e o conteúdo de sua cesta, a partir de suas posses.

Outras marcas disputavam o mercado de cestas de natal naquele tempo, como a "Columbus" e a "Titanus". Mas, sem dúvida, a "Amaral" era a campeã de vendas. Um de seus diferenciais é que nela - lembram os consumidores -, vinha um brinde disputadíssimo pelas crianças.

 

BONECOS

O brinde era um boneco de plástico chamado "Gigante Amaral", uma espécie de gênio da lâmpada das histórias árabes, como o Aladim. Ele segurava numa das mãos uma casinha e na outra um carro, que eram alguns dos brindes sorteados durante o ano entre os compradores.
O leitor Vicente de Paula Borges nos lembra de uma casa que foi sorteada a um prestamista sanjoanense. Ele não se recorda em que ano isso ocorreu, mas o endereço é fácil: Rua Floriano Peixoto, próximo ao número 670. De acordo com Vicente, durante algum tempo uma faixa instalada defronte à casa anunciava que ela havia sido entregue pelas Cestas de Natal Amaral.

Mais leitores se recordam de que havia uma outra versão desse boneco, que ficava com os braços cruzados. Esse boneco-brinde foi substituído, posteriormente, por outros mais próximos da realidade brasileira: o da Emília (de Monteiro Lobato) e do futuro 'rei' Pelé.

Se o leitor pesquisar na internet, ainda consegue comprar exemplares remanescentes desses bonecos, uma raridade que poucos guardaram e que, agora, valem o seu preço em ouro.

Ah, vinha também um disco compacto duplo da gravadora RGE, com quatro músicas natalinas. Houve anos em que esses disquinhos musicais eram coloridos e transparentes. As músicas nele gravadas criavam o clima perfeito para todo o mês de dezembro, já que a cesta chegava na primeira quinzena. Esses discos também são vendidos hoje na web.

 

DISCO

O disquinho inserido no interior da cesta trazia, ainda, a mensagem gravada de Natal da empresa. No ano de 1959, a voz foi a do seu Diretor de Marketing, Waldemar Ciglioni e, na capa do disco, estava a fotografia de seu filho, Waldemar Ciglioni Jr, debruçado sobre uma cesta aberta.

Conheça o texto. “(cantado) Acaba de chegar no meu lar, a Cesta de Natal Amaral. Bom Natal, bom Natal, bom Natal.  (falado) Na festiva noite do Natal, quando as bênçãos do Menino Deus descem sobre a Terra, a Cesta de Natal Amaral, jubilosamente, participa das alegrias do seu lar. E praz a Deus que, para o ano, estejamos todos juntos para, ainda uma vez, proclamarmos: 'Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade'”.

Um leitor sanjoanense do jornal O MUNICIPIO, que prefere ficar no anonimato (M.A.S.B.), apresentou ao repórter esse disquinho, em perfeito estado, que ele ainda guarda como uma raridade.

 

EMPRESA

Por detrás da chegada da Cesta de Natal Amaral nas casas de seus compradores havia uma empresa muito bem estruturada. Ela até editava a sua própria revista de informações. Seus vendedores eram motivados com prêmios em finais de campanha. O compromisso com o cliente era respeitado.

Em muitas cidades do interior paulista havia uma loja Amaral, ou um representante sediado em loja local. Peruas Kombi também eram utilizadas para a entrega da cesta, no mês de dezembro. Eram chamadas de “lojas volantes”.

O amigo Antonio Gregório nos escreve para dizer: "Interessante é também lembrar que, para a inauguração da loja das Cestas de Natal Amaral aqui em São João, houve um show com o cantor João Dias. Lembro-me até de uma música cantada por ele, pois se aproximava o Carnaval e ele lançava tal musica cujo nome é 'Engole ele, paletó'... Não me lembro o ano".

Do mesmo modo que se pratica hoje, a empresa promovia convenções de vendedores, onde acontecia a premiação aos melhores profissionais. Eram lautos almoços ou jantares, reunindo esses comerciantes e diretores da Amaral.

E mais: os prestamistas (aqueles que pagavam a cesta ao longo do ano) eram agraciados com brindes mensais e até semanais, como incentivo à continuidade do pagamento das mensalidades. Igual  ao Baú da Felicidade, de Sílvio Santos.

Aliás, em 1961 Sílvio apresenta na TV o “Super Tesouro Amaral”, programa de prêmios das Cestas de Natal Amaral. Era o rival do Baú da Felicidade, mais tarde comprado por ele. Com isso, Sílvio copiou e comprou diversos formatos para usar em seu próprio programa, um tempo depois.

Os prêmios que a Amaral oferecia aos seus prestamistas eram máquinas de costura, bicicletas Monark, máquinas de tricô, liquidificadores, barbeadores elétricos, uma 'bateria' de cozinha e batedeiras de bolo. Além do carro e da casa já citados nesta reportagem.

Os resultados desses concursos eram divulgados na Rádio Tupi-PRG 2, e publicados em jornais de São Paulo, Campinas, Curitiba e Santos. Era isso o que atiçava no publico a vontade de comprar a Cesta e concorrer aos prêmios.

E foi mesmo no ano de 1966, que as Cestas de Natal Amaral chegaram pela última vez nas casas dos ávidos consumidores. De acordo com depoimento exclusivo ao jornal O MUNICIPIO de Rui Amaral Lemos Jr., filho do empresário que criou as famosas cestas, “o fechamento das Cestas teoricamente se deu por causa da inflação da época, quando não havia correção monetária. A verdade é que meu pai (único dono com minha mãe) fechou a indústria, pagou todos funcionários e credores, e ficou com os prédios”.



Escrito por clovisblog às 18h10
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