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Blog de Clovis


REENCONTRO

Quando te olho e te vejo e te percebo, passado o intenso espanto de não assimilar tudo o que me mostras, descubro depois, descansado, que é reencontrar a minha paz, o meu paraíso, o sossego, aquilo que passo a vida a buscar e que reténs em teu pulsar, despercebido.



Escrito por clovisblog às 14h00
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SEM MEMÓRIA NO NATAL

 

"Homem, de aproximadamente 30 anos, de cor branca, com cabelos pretos e 1,75m deu entrada no Hospital em outubro do ano passado. Ninguém sabe quem ele é. Entre médicos e enfermeiras é conhecido como 'paciente 808'. Foi submetido a um sério tratamento, em virtude de seu gravíssimo estado de saúde. No braço direito, ele tem uma tatuagem onde se lê 'Nicolas e Micael: papai ama vocês'. No braço esquerdo, há o desenho de um peixe e um polvo. Sofre de amnésia."

A notícia do jornal pede encarecidamente a quem o reconheça pela foto, que venha com informações. Ele mesmo não sabe quem é. Neste momento, ele está alheio ao movimento que farfalha no hospital, com enfermeiras decorando os corredores de luzes natalinas, arranjos de bolas coloridas e flores artificiais.

Suas lembranças de outros natais estão congeladas até o exato momento em que um evento devastador paralisou a sua capacidade de se lembrar de pessoas, de lugares, de festas anteriores. Essa alegria que tiramos do bolso (onde ela esteve guardada pelos onze meses não-natais), agora ressurge renovada e nos esforçamos pela harmonia.

Quando despertar do tratamento e retomar suas funções de gente, o homem buscará identificações e não encontrará sintonia com o que lhe vai em redor. A cor da parede, o formato do quarto, os cheiros, os ruídos, a luz que entra pela persiana. O Natal não lhe penetrará emoção a dentro.

Depois, virão as pessoas. A enfermeira o cumprimenta como a um amigo antigo, o rapaz das refeições no carrinho e o médico (tão jovem, ainda!) que, agora, pode perguntar com alguma garantia de obter respostas.

A todos, quem sabe, o homem do quarto 808 desejaria fazer as mesmas perguntas. Alguma tragédia pessoal roubou dele a sua linha do tempo, embaralhando o passado e o confinando num 'presente' sem forma nem conteúdo.

Passa pela porta do seu quarto a acompanhante do paciente do quarto vizinho. Ela sabe da sua  perda de memória e lamenta não ter ocorrido o mesmo consigo. Igual a muitos outros seres humanos, esta também não deseja o Natal, não gosta de suas cores e cheiros e brilhos.

Esse tempo, que em muitos reinaugura a infância, a torna triste e a angústia que sente parece não ter sentido real. Obrigada a conviver diariamente com tantas amargas lembranças que esmagam a sua pequena alma, ela lança sobre o paciente 808 um olhar de inveja. Ele não percebe.

 



Escrito por clovisblog às 11h14
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EM BUSCA DO ARCO-ÍRIS

 

(texto escrito a partir desta foto de Marcos José Silva)

Não, não importa a extensão da caminhada! Vou conversando com o meu cajado e tirando da mochila alimento para a minha alma. Sei que a cada passo adiante, vou deixando para trás o conforto do meu destino de origem.

É preciso correr contra esse tempo atroz e obscuro que move um tremendo poder: o de arrancar de toda gente o brilho do olhar e o pulsar do coração. É preciso que o meu herói adormecido desperte do seu sossego e me venha em socorro.

Aluno que sou, me cabe essa missão de ensinar o afeto, de reinaugurar a gentileza nas mentes que foram cegadas para a luz. E esse intento me faz rever esses mesmos sentimentos que me foram ofertados um dia. Presentes de amor.

Vista daqui, da altura das minhas intenções, aquela cidade parece mansa. Seus homens e mulheres e crianças e velhos estão silenciados pelo tremendo poder, mas isso não se mostra desse ponto da minha viagem. Eu preciso chegar logo ao próximo destino.

O primeiro povoado em que meus pés pousarem precisa querer me ouvir, me entender... e precisa desejar espalhar a boa-nova que trago. O povo - ainda gentil - em que eu pousar os meus olhos e fazer ouvir a minha voz precisa manter a sua força e desfraldar bandeiras e tocar o sino.

No entanto, até que lá eu chegue, me persegue o risco de ser pego a caminho. Em minha ânsia de logo chegar vou tropeçando em pedras, cruzando riachos, conhecendo trilhas... O que me guia é o compromisso de não permitir que o tremendo poder se mantenha.

Antes que o dia se torne noite, e que a canção ser converta em lamento, eu preciso chegar e preciso ensinar a lição e preciso que as pessoas a aprendam. Peregrino e portador que sou da luz do amanhã, não posso precisar do afago. Essa riqueza virá quando eu cumprir com a missão.

É por isso que caminho incansável. Não importa que o tremendo poder tenha tirado a cor da vida.

 



Escrito por clovisblog às 11h14
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OS VISITANTES

 

(texto escrito a partir desta foto de André Carbonara)

2010 – O grupo de peregrinos desloca-se em direção à latitude 21º58'09" sul, longitude 46º47'53" entrando na região cristalina da Serra da Mantiqueira. A região que esse pessoal busca ocupa as primeiras colinas dessa área, que se elevam, gradativamente, até o rebordo de um grande planalto.

Embora possam ser chamados de 'peregrinos', os pesquisadores que caminham sob esse sol de janeiro não vestem trajes típicos daqueles caminhantes originais: estes estão tecnologicamente paramentados, dentro de verdadeiras armaduras protetoras feitas de tecido inteligente.

Protegidos e monitorados desde o seu local de origem, seu organismo é controlado por chips biológicos a cada passo dado nesse terreno acidentado, de difícil caminhada. Nada deverá interromper sua pesquisa, iniciada em 2095, como trabalho estabelecido por professores exigentes na Universidade Sideral “Cosmos Inc.”.

A devastação ocorrida dez anos antes (em 2085), neste mesmo local onde ora tropeçam nos seixos e terreno úmido, foi o motivador principal dessa sondagem. A viagem no tempo, que acontece como um flash fotográfico, deslocou para o passado pessoas em busca da reconstrução do que foi perdido.

Já é grande a surpresa ao chegarem: ar puro, temperatura cálida, o silêncio... Depois, o ruído de pequenos animais (aqui neste tempo ainda são abundantes), o correr dos riachos de água pura, o som dos próprios pés sobre a relva, sobre folhas secas...

O líder do grupo, Prof. Spencer, pressente a aproximação do destino em busca do qual vieram através das décadas: como sensitivo especial, tem no seu plexo-solar a melhor bússola e o mais claro mapa. O seu trabalho é este, encontrar destinos, apontar para o alvo.

Ele apenas não soube preparar a emoção dos demais viajantes, seus companheiros, para o que estava oculto pela colina à frente. Não pode avaliar a intensidade do impacto da próxima cena. Assim, todos já arfantes de cansaço e ansiedade, guiarem-se pelas indicações do Mestre e subiram quase correndo o pequeno morro para, maravilhosamente, preencher os olhos com a mais bela visão.

Tudo o que havia sido inevitavelmente perdido estava ali, a sua frente, uma visão espetacular, de roubar o fôlego, de paralisar o coração, de emocionar às lágrimas.

 



Escrito por clovisblog às 11h11
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A caminho

Hoje, estou naqueles dias em que gostaria de sair pelo mundo, com uma mochila vazia nas costas, caminhando até cair de cansaço e, quem sabe, ter a memória completamente apagada de tudo o que eu já vivi.

Sim, nem tudo merece continuar vivo como lembrança. Seria como renascer com o HD totalmente limpo, sem arquivos desnecessários, nem softweres que não funcionam direito.

Esquecer as pessoas, suas frases de efeito, seus gestos inócuos e olhares vazios. Ter o coração esperançoso como foi um dia, ter um sorriso sincero para novos encontros e descobertas.

Seria assim, olhar para o caminho que se apresenta diante dos olhos e saber que nele eu posso andar na minha velocidade e sem relógios no pulso.

Perceber que em minha direção vêm pessoas novas, que não me conhecem, não sabem de mim nem de minhas escolhas anteriores. Eu gostaria de abraçar essa gente nova, sentir o calor que vem dos seus corpos cálidos e generosos.

Daí, quem sabe, a Natureza possa me oferecer a dádiva da Morte: eu estaria feliz, completo, independente. Do mesmo modo que nasci, tempos atrás.



Escrito por clovisblog às 13h30
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Uma tragédia sanjoanense

30 de abril de 1968, à tarde. A mulher desce correndo a rampa que vem da garagem de sua casa até a calçada, na rua Getúlio  Vargas. Ela vem gritando com as mãos na cabeça: "meu Santo Antonio!", "meu Santo Antonio!" São os seus gritos desesperados que nos chamam a atenção: Pistelli e eu estamos na calçada oposta, andando calmamente; estou lendo para ele a crônica "Mudança", do Paulo Mendes Campos, e estávamos rindo.

Somente quando passamos defronte ao portão é que nos deparamos com a tragédia. A mulher nem se importa se o trânsito naquele momento lhe abre espaço - ela se projeta sobre o filho de três anos que está caído no asfalto. O menino acaba de ser atropelado e está ali, misturado com suas roupas parecendo uma trouxa que vai à lavanderia. O atropelador fugiu e nem mesmo eu ou o Pistelli sabemos dele.

O impacto dessa cena é muito forte para nós dois e nem por um segundo pensamos em interromper a nossa caminhada, tão acelerado está o nosso coração e repleto de gritos da mulher está o nosso ouvido. Enquanto nos distanciamos mudos daquela cena, a mãe desesperada abraça o filho já morto, na tentativa insana de trazê-lo de volta. Neste momento, é o pai do menino quem desce a rampa da garagem e também se joga sobre a tragédia viva ali na sua frente.

Já a meio quarteirão dali, vou explicando isso tudo ao Pistelli. De ouvido aguçado, ele pode criar suas proprias imagens a partir do que ouviu naqueles segundos infinitos de tempo. Logo, chegamos a sua casa e entramos sem ligar música, como fazemos de costume. Beethoven, Ravel e Chopin ficam bem quietos em seus sulcos nos Lps.

Já faz tanto tempo que presenciamos este fato. Tínhamos apenas 16 anos, mas ele sempre me volta à memória como se quisesse se resolver em minha vida. "Viver, filosofei pela rama, é colecionar ruínas", afirma o escritor naquela crônica que eu lia no momento da tragédia.

Não sei dizer como sobreviveram os pais do garoto morto no asfalto da rua Getúlio Vargas, não procurei por notícias posteriores. Como sobreviver a fatos assim? Viver é colecionar tragédias, corrijo Paulo Mendes Campos, pretensiosamente...



Escrito por clovisblog às 12h00
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Presentes de Natal

A menina - 13, 14 anos -, fica um tempo diante das vitrines escolhendo presentes de Natal para si mesma. Ela não sabe querer nada muito facilmente e seu coração se divide entre vestidos com brilhos, um kit importado de cosméticos para o cabelo e esses telefones celulares com rádio e televisão.

A calçada das lojas tem muita gente animada com a véspera do Natal e ela vai esbarrando em gente que besunta o vidro das lojas com suas mãos ávidas de alegria. A cidade tem música no ar, vinda de uns altofalantes em cada esquina, e também luzes coloridas que se enrolam nos troncos dos flamboyants.

Cansada de olhar e de desejar, a menina se põe à mostra mais perto da sarjeta e logo um desses SUV estaciona com o motor ligado. Ela sabe que foi escolhida e facilita a aproximação: chega à janela do veículo e fica ouvindo as frases do motorista, que se supõe sedutor. Seus ouvidos estão ali, mas as palavras que saem daquela boca soam como em câmera lenta, em sons embaçados que ela apenas vai meneando com a cabeça sem adivinhar seus significados.

O veículo roda por bairros ainda inacabados, onde o escuro e o silêncio podem garantir essa privacidade urgente que o motorista anseia. O interior da cabine se transforma num efêmero centro de prazer onde mãos, lábios e pernas se misturam com palavras pela metade, suor manchando camisas de linho e gemido de dor e êxtase. Com a ansiedade em paz e o coração pulando em recém-taquicardia com o presente que acaba de se dar, o homem abre a carteira e acerta o encontro.

De volta ao centro, ele a deixa na mesma sarjeta das vitrines. Sua SUV desaparece em direção ao lado nobre da cidade, onde uma festa de luzes e assados o aguarda para o seio da família. 

Em pé na calçada, diante de suas lojas prediletas, a menina volta a desejar indecisa. O relógio em seu pulso a desperta do sonho e ela corre para casa - receber o Natal na avenida não é o seu plano. Sua pequena silhueta vai se diluindo na noite à medida em que se afasta das luzes, rumo à periferia. Longe, agora, a garota põe a chave na porta e a abre com cuidado, sem fazer um ruído. Atravessa o primeiro cômodo, deixa sobre a TV parte do dinheiro arrecadado. Sua mãe é quem vai saber usá-lo melhor.

No quarto - uma cama de solteiro e um outro colchão ao lado, no chão -, é onde sua mãe está, sonolenta, recostada na cabeceira da cama. Ela segura seu neto de 11 meses, uma chupeta azul na boca, pele de pêssego. Muito carinhosamente, a menina pega o filho em seus braços e se senta ao lado da mãe. Trocam olhares gentis. Ao passar de um colo ao outro, o bebê desperta e oferece aquele sorriso impossível de se descrever.

A jovem mãe o põe sentado em suas pernas e retira de sua bolsa colorida o pequeno presente de Natal que pode comprar para ele; e olha por um longo tempo, profundamente, em seus olhos.



Escrito por clovisblog às 13h11
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Crianças reinando em nossas vidas

Aquela mulher vai chegando devagar no artista que se exibe na feirinha dominical de Poços de Caldas. Ela não sabe muito bem se 'aquilo' a sua frente é mesmo uma estátua de barro ou um ator com grande controle sobre seus movimentos: o rapaz está ali parado faz tempo, inteiro coberto por lama, que o sol já transformou em placas que vão se soltar de sua pele a qualquer momento...

Antes de confrontar a verdade, olhando nos olhos da estátua, ela me pede algumas moedas para depositar, em reverência, no chapeu do artista. A senhora está completamente mesmerizada pela performance teatral - a criança que ela guarda em seu coração está perplexa com aquela Arte ao vivo, ao ar livre, para quem a quiser ver.

Logo após jogar as moedas no chapeu, a mulher encara o artista e fica bebendo aquela surpresa em forma de "vamos brincar de estátua?". Ele, sensível, percebe o que está fazendo por ela e não se nega: faz uns gestos que parecem uma dança desconexa, sem torcer um milímetro sua musculatura facial. Esse seu esforço fortalece a sua condição de imagem de barro e desperta na admiradora anônima imagens de bonecas mecânicas, que talvez já a tenham encantado anteriormente.

Quando ela se percebe objeto da dança do rapaz, do seu carinho e da sua atenção, os seus olhos se enchem de lágrimas. Ela voltou a ser criança. Por inteiro, em cada fremor do seu corpo de 84 anos, vividos duramente. Infância mesmo que é bom, ela não teve. Seu corpo magrinho, naquela época de ser menina, serviu a muitas famílias mineiras e sanjoanenses como empregada doméstica desde os 7 anos de idade.

Então, ela não se conteve e se aproximou do seu príncipe. Em perfeita sintonia com o que está acontecendo naquele momento, o artista de lama se deixa aconchegar e se move num volteio que a encaixa sob o seu braço direito. Alguns visitantes da feirinha também percebem esse momento mágico para ambos e param para ver aquela cena tão singular - ao invés de ali estar uma criança real, que naturalmente se encantaria com as supresas do mundo, está esta mulher que jamais abandonou a criança que desejou ser. Ela posa para algumas fotos. Sua expressão facial mistura muitos sentimentos bons.

Quando o encanto termina, nós não nos cansamos de aplaudir e agradecer o artista. Em estado de graça, minha mãe segue pelos meandros da feirinha poçoscaldense com um brilho novo nos olhos. Os muitos objetos que ali estão à venda não se comparam ao valor da lição por ela oferecida: nunca se furtar a expor essa criança que vive e reina em nossas vidas. E que, em muitas vezes, fica trancafiada solitária, brincando com as memórias do passado, sem a menor chance de sair, de respirar novas experiências, de conhecer gente nova. Ou estátuas novas.



Escrito por clovisblog às 11h37
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Meu pai na tela da TV

Meu pai chega primeiro no sofá e pega o controle: vai direto à ESPN e começa a ver o jogo do Corinthians dele. Eu tentei correr pra sentar antes em frente à TV, mas não consegui me livrar da namorada ao telefone. Tudo bem, mas no jogo do São Paulo ela tem que me ligar no celular se quiser falar comigo demorado.

Domingo aqui em casa é assim mesmo. Quem for mais esperto assiste o que quiser na TV nova. Geralmente, o esperto dominical é o meu pai. A gente até entende, ele já está velho, não precisa dormir muito, acorda junto com a minha mãe ali pelas 6h30 e vai direto pro sofá, enquanto ela faz o café.

 No intervalo do jogo, ele corre pro Discovery e não dá chance pra ninguém ver a MTV ou o Sony Spin, onde começou uma série nova de vampiro. Minha irmã fica maluca porque meu pai tem esse gosto estranho de ver futebol e documentários... Eu dou risada disso.

Ontem eu me sentei ao lado dele pra ver o Megaconstruções. Ao invés de olhar pra tela da televisão, fiquei olhando pro meu pai. O cabelo dele já está ficando branco. Ele não entrega o jogo do que rola na vida dele, mas há uma tristeza naqueles olhos azuis que não tem como disfarçar.

Conforme as imagens do documentário vão surgindo, meu pai meio que ajeita o corpo no sofá ou aperta um pouco os olhos como que perguntando como aquilo na TV é possível. Na vida real, ele aprendeu a arrebentar com os desafios, mantém a gente na escola, faz a minha mãe feliz, ri com os velhos amigos que também são a alegria dele.

Quando meu pai pega o controle para zapear no intervalo, vejo as suas mãos de trabalhador pesado. Ela é dura, dedos nodosos, restos de graxa, madeira, tinta, pó de metal... impossível de tirar com água e sabão. São suas marcas registradas de homem que não descansa enquanto a tarefa não está cumprida.

Sossego mesmo, só quando ele se espalha no sofá e liga a TV. Nessa hora eu vejo que ele ainda sabe rir gostoso, sabe fazer perguntas inteligentes sobre o que está vendo, sabe palpitar naquela cena que o locutor quer explicar direitinho para o espectador. Inteligente, criativo, gaiato de vez em quando. Meu pai é um cara bem legal, mas a gente passa boa parte do tempo sem valorizar isso.

Daqui a pouco vai começar o programa Salva Vidas, no Net Geo. É sobre um rapaz de 17 anos, que vai aprender a ser salva vidas com um veterano de 59. Nem bem o documentário começa e meu pai antecipa alguns lances do show. Eu deveria ficar muito bravo, porque ele fala durante o filme, interrompe a minha concentração e ainda quer dar uma de “bonzão”, como se ele fosse o personagem.

É nesse momento que eu volto a olhar os fios prateados do seu cabelo, a pele castigada de suas mãos e a tristeza do seu olhar azulado: ele é aquele personagem! Ele é aquele salva vidas me ensinando como me sair bem numa tempestade no meio do oceano, como tocar o barco durante uma borrasca, como chegar a uma ilha de bonança depois da ventania.

Meu pai é o cara!

 



Escrito por clovisblog às 11h53
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Uma Cidade


Abra os olhos, aguce o pensamento, afine os ouvidos: pode ser que esta cidade seja um palco. Pode ser uma pauta. Uma tela em branco. Uma coreografia. Pode ser que São João seja uma fala de personagem, uma cena muda. Um fraseado musical. Uma pincelada precisa ou um passo de dança.
 
Esta é uma cidade de atores representando textos teatrais, cotidianamente em seus afazeres. São músicos tocando invisíveis instrumentos e entoando cantos harmônicos em suas decisões. Esta é uma cidade de pintores colorindo o crepúsculo ou redesenhando o emaranhado das ruas. São João é feita de bailarinos cumprindo uma não-planejada coreografia que encanta os vizinhos.
 
Quando os bastidores se abrem, quando as cinco linhas paralelas dos desafios se oferecem à escrita, quando os pinceis da faina diária se encharcam de cores e as sapatilhas se aprumam na vertical... é porque a cidade já está perfeitamente pronta para as luzes da ribalta e os holofotes. Em cena, somos completos, vivemos todas as histórias, sabemos todos os finais, nos curvamos em reverência. Somos um filme.
 
É por isso que nos acostumamos tão rapidamente às semanas de Arte, às Viradas Culturais, ao Cineclube, à Banda na praça, aos livros lançados por escritores de todas as letras. A cidade não perdoa: ela se anuncia ninho de talentos e mostra esse parir constante e impune, para o deleite de todos.
 
Todo bairro é uma paleta multicor. Em cada casa mora um artista. Em cada esquina os meninos recitam notas musicais. Enumeram objetos diretos e indiretos, exibem nuances de guache e aquarela. Cada curva também é um palco, um microfone, uma página. Alguns nós são megafones estridentes.
 
Pode ser que esta cidade seja uma festa. Um evento, um happening, uma salva de palmas. Diariamente somos vistos, ouvidos, somos lidos com todos os acentos, cedilhas, hífens. Mas é preciso ligar o rádio, folhear as páginas, abrir as cortinas. Senão... a cidade não será vista desse modo. Será somente uma cidade.


Escrito por clovisblog às 17h54
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Madeira, pó-de-serra...

Fico me perguntando como me interessei por Arte e Cultura crescendo num mundo tão diverso destes.
Havia dois flamboyants na esquina onde funcionava a fábrica de carrocerias de meu pai. Um deles, na rua Padre José; o outro, na rua Cons. Antonio Prado ainda com paralelepípedos e guias de sarjeta que os meninos da 'turminha' limpavam periodicamente. Quando as árvores floriam, nós escalávamos seu tronco e galhos para colher aquelas flores vermelhas com pontos amarelos. Seu destino certo eram os túmulos da família, já que o mês de novembro traz o dia dos mortos e suas saudades.

Mas no interior da fábrica, a grande brincadeira era o monte de pó-de-serra! Esse material ia se acumulando com a faina da serra circular e o seu perigoso movimento de cortar madeira grossa. Chegava um momento em que havia tanto resíduo encostado na parede de tijolos pintados de branco, que não tínhamos saída: o melhor a fazer era se jogar nele e afundar o corpo naquele colchão macio e poeirento de madeira pulverizada.
Papai era mais tolerante e entendia a graça do filho e seus amigos desmanchando em risos aquele acúmulo de pó grosso. Tio Ramiro é quem passou a vida sendo um homem sério e a sua sizudez nos incomodava até nestes momentos de lazer grátis, quando nos dava broncas por espalharmos por ali aquele conteúdo.

Nos outros dias, queríamos encontrar no chão da fábrica os toquinhos que sobravam dos cortes na madeira e sua infinidade de formatos. Era com eles que construíamos casas, caminhões, bichos... esses brinquedos que a imaginação constroi e ela mesma faz a manutenção dos enredos que nos ajudam a atravessar o dia vivendo uma infância muito divertida e boa e simples.

No restante do tempo, a realidade era bruta no dia a dia de trabalho. A fábrica produzia um incômodo e amplo ruído de cortar, serrar, aplainar, perfurar e montar madeira de várias cores e aromas. Dali, saíam prontas carrocerias para caminhões enormes que vinham até de outros Estados. No barracão sujo e com teias de aranha nas quinas das paredes também eram feitas caixas e objetos de todos os tipos, e encomendas especiais como alguns móveis exclusivos. Os funcionários do meu meu pai eram sempre gente jovem; eles acabavam se tornando nossos amigos e iam conosco à Piscina do Boi em alguns finais de semana para nadar e comer aquelas comidas gostosas que mamãe fazia.

Eu poderia muito bem ter me especializado em trabalhar com madeiras, colas, tintas... Eu poderia ter me tornado um desses empresários que enriquecem a custa de muito suor e de seriedade. Houve, então, algum outro caminho que me seduziu mais. Talvez tenha sido a leveza com que papai sempre entendeu a Vida. Quando a fábrica foi fechada, ele comprou uma perua Veraneio verde e se tornou motorista de táxi. Até hoje, muitos amigos meus se lembram dele como aquele sujeito divertido, que dirigia muito bem e que tornava a viagem mais gostosa do que a chegada ao destino final.

Apesar do sucesso da fábrica de carrocerias, meu pai nunca foi um homem rico. Quem o via de chinelos e de camisa aberta na praça Gov. Armando Sales, a qualquer hora do dia, nem imaginava o homem doce e inteligente e criativo que estava ali. Quando ele se foi, nunca vimos tantas flores e coroas e manifestações de pesar. A amizade que ele deixou por aqui, sim, era a sua riqueza.



Escrito por clovisblog às 10h46
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CESTAS DE NATAL AMARAL


Segunda metade da década de 1950. O caminhão-baú das Indústrias Amaral para em frente à casa. No interior daquele lar, a família percebe a chegada do veículo. Os vizinhos também descobrem que ele ali estacionou e já sabem quem chegou...

Se você tem 50 anos, ou mais, não precisa adivinhar: acaba de chegar a Cesta de Natal Amaral! Durante todo o ano aquela família pagou, mês a mês, o carnê daquele mimo. Agora que ela está na sala principal, todos concordam que vale cada centavo investido.

Quando a cesta é aberta, quase não se consegue segurar a ansiedade e muitas mãos mergulham em seu interior para descobrir todos aqueles tesouros envolvidos em papel celofane picado e em palha também picada, que protegeram o seu conteúdo durante a viagem.

Muitos saudosistas ainda têm em casa aquela cesta de vime, grande e funda, muito bem construída, forte, que servia como baú no restante do ano para guardar quaisquer outras coisas da família como tecidos e roupas, livros, álbuns de fotos.

 

DELÍCIAS

O que vinha no interior da cesta? Vinhos (alguns, importados), champagnes, licores, groselha, refrigerantes... Pacotes de castanhas portuguesas, de nozes, de uvas passa e ameixas secas. Panetone, barras de torrone, latas de doces em calda, pacote de bombons Sonho de Valsa, bolachas acondicionadas em latas decoradas, mistura pronta para bolo e Mandiopan! Enfeites para a porta de frente, presentes para as crianças...

Num tempo em que supermercados eram novidade, a Cesta de Natal Amaral é que supria de guloseimas natalinas os lares de muitos brasileiros, nas décadas de 1950 e 1960. É claro que cada família decidia o tamanho e o conteúdo de sua cesta, a partir de suas posses.

Outras marcas disputavam o mercado de cestas de natal naquele tempo, como a "Columbus" e a "Titanus". Mas, sem dúvida, a "Amaral" era a campeã de vendas. Um de seus diferenciais é que nela - lembram os consumidores -, vinha um brinde disputadíssimo pelas crianças.

 

BONECOS

O brinde era um boneco de plástico chamado "Gigante Amaral", uma espécie de gênio da lâmpada das histórias árabes, como o Aladim. Ele segurava numa das mãos uma casinha e na outra um carro, que eram alguns dos brindes sorteados durante o ano entre os compradores.
O leitor Vicente de Paula Borges nos lembra de uma casa que foi sorteada a um prestamista sanjoanense. Ele não se recorda em que ano isso ocorreu, mas o endereço é fácil: Rua Floriano Peixoto, próximo ao número 670. De acordo com Vicente, durante algum tempo uma faixa instalada defronte à casa anunciava que ela havia sido entregue pelas Cestas de Natal Amaral.

Mais leitores se recordam de que havia uma outra versão desse boneco, que ficava com os braços cruzados. Esse boneco-brinde foi substituído, posteriormente, por outros mais próximos da realidade brasileira: o da Emília (de Monteiro Lobato) e do futuro 'rei' Pelé.

Se o leitor pesquisar na internet, ainda consegue comprar exemplares remanescentes desses bonecos, uma raridade que poucos guardaram e que, agora, valem o seu preço em ouro.

Ah, vinha também um disco compacto duplo da gravadora RGE, com quatro músicas natalinas. Houve anos em que esses disquinhos musicais eram coloridos e transparentes. As músicas nele gravadas criavam o clima perfeito para todo o mês de dezembro, já que a cesta chegava na primeira quinzena. Esses discos também são vendidos hoje na web.

 

DISCO

O disquinho inserido no interior da cesta trazia, ainda, a mensagem gravada de Natal da empresa. No ano de 1959, a voz foi a do seu Diretor de Marketing, Waldemar Ciglioni e, na capa do disco, estava a fotografia de seu filho, Waldemar Ciglioni Jr, debruçado sobre uma cesta aberta.

Conheça o texto. “(cantado) Acaba de chegar no meu lar, a Cesta de Natal Amaral. Bom Natal, bom Natal, bom Natal.  (falado) Na festiva noite do Natal, quando as bênçãos do Menino Deus descem sobre a Terra, a Cesta de Natal Amaral, jubilosamente, participa das alegrias do seu lar. E praz a Deus que, para o ano, estejamos todos juntos para, ainda uma vez, proclamarmos: 'Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade'”.

Um leitor sanjoanense do jornal O MUNICIPIO, que prefere ficar no anonimato (M.A.S.B.), apresentou ao repórter esse disquinho, em perfeito estado, que ele ainda guarda como uma raridade.

 

EMPRESA

Por detrás da chegada da Cesta de Natal Amaral nas casas de seus compradores havia uma empresa muito bem estruturada. Ela até editava a sua própria revista de informações. Seus vendedores eram motivados com prêmios em finais de campanha. O compromisso com o cliente era respeitado.

Em muitas cidades do interior paulista havia uma loja Amaral, ou um representante sediado em loja local. Peruas Kombi também eram utilizadas para a entrega da cesta, no mês de dezembro. Eram chamadas de “lojas volantes”.

O amigo Antonio Gregório nos escreve para dizer: "Interessante é também lembrar que, para a inauguração da loja das Cestas de Natal Amaral aqui em São João, houve um show com o cantor João Dias. Lembro-me até de uma música cantada por ele, pois se aproximava o Carnaval e ele lançava tal musica cujo nome é 'Engole ele, paletó'... Não me lembro o ano".

Do mesmo modo que se pratica hoje, a empresa promovia convenções de vendedores, onde acontecia a premiação aos melhores profissionais. Eram lautos almoços ou jantares, reunindo esses comerciantes e diretores da Amaral.

E mais: os prestamistas (aqueles que pagavam a cesta ao longo do ano) eram agraciados com brindes mensais e até semanais, como incentivo à continuidade do pagamento das mensalidades. Igual  ao Baú da Felicidade, de Sílvio Santos.

Aliás, em 1961 Sílvio apresenta na TV o “Super Tesouro Amaral”, programa de prêmios das Cestas de Natal Amaral. Era o rival do Baú da Felicidade, mais tarde comprado por ele. Com isso, Sílvio copiou e comprou diversos formatos para usar em seu próprio programa, um tempo depois.

Os prêmios que a Amaral oferecia aos seus prestamistas eram máquinas de costura, bicicletas Monark, máquinas de tricô, liquidificadores, barbeadores elétricos, uma 'bateria' de cozinha e batedeiras de bolo. Além do carro e da casa já citados nesta reportagem.

Os resultados desses concursos eram divulgados na Rádio Tupi-PRG 2, e publicados em jornais de São Paulo, Campinas, Curitiba e Santos. Era isso o que atiçava no publico a vontade de comprar a Cesta e concorrer aos prêmios.

E foi mesmo no ano de 1966, que as Cestas de Natal Amaral chegaram pela última vez nas casas dos ávidos consumidores. De acordo com depoimento exclusivo ao jornal O MUNICIPIO de Rui Amaral Lemos Jr., filho do empresário que criou as famosas cestas, “o fechamento das Cestas teoricamente se deu por causa da inflação da época, quando não havia correção monetária. A verdade é que meu pai (único dono com minha mãe) fechou a indústria, pagou todos funcionários e credores, e ficou com os prédios”.



Escrito por clovisblog às 18h10
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O Natal no escritório

Vai chegando essa época do Natal e eu vou ficando com vontade de ter trabalhado o ano todo num desses escritórios de contabilidade. Me torno meio borocochô. Houve alguma coisa ali pelo Natal de 1970 que fixou em minha memória emocional essa delícia de ter atravessado na labuta o ano contábil e, então, aproveitar as festas com os colegas de trabalho.
Eu nunca trabalhei em locais assim e confesso que não tenho essa aptidão. Mas como foi bom aquele 20 de dezembro de 1970, com aquelas pessoas desconhecidas num momento e, logo em seguida, amigas para sempre! Entre os funcionários do escritório do Sr. Veldo Westin (ah, que saudades de Dona Eny) eu apenas conhecia a Zeza, a quem namorava já com meio jeito de amiga, e a Celinha sua colega.
Depois desse encontro, nunca mais consegui repetir o feito de passar uma festa natalina em meio a máquinas de datilografia, papel ofício, copiadoras de documentos... Pareceu mágica, pareceu profundamente amigável aquele encontro, como se todos ali assim se comportassem no restante do ano.
Foi um tempo em que realizar o jogo de 'amigo secreto' ainda era muito bom, muito divertido e surpreendente. No desaparecido Depósito Alvorada, nós comprávamos uns kits da Bozzano, numa caixa já com cara de presente, onde repousava creme de barbear+loção pós barba e o sucesso era certo. Foi o tempo, também, da colônia Sândalo que vinha num frasco com jeito meio oriental... Esse cheiro foi a minha 'perdição' depois dessa festa, mas não vou dizer porquê.
Tantos amigos eu não os encontrei mais. E mesmo os que ficaram por aqui, a Vida foi espalhando e promovendo o desencontro. Vez ou outra ainda os vejo e nos cumprimentamos. Eu volto àquele dia, é claro.
Tenho boas lembranças de tantos natais e quem sabe seja por isso que gosto bastante dessa época. Gosto do cheiro que elegi como sendo 'de Natal', vindo de uma pequena palmeira que havia na esquina da rua São João com a praça da Matriz. Por isso é bom ficar velho: quando a realidade nos oprime podemos abrir essa porta e nos refugiar no passado.
Ele está sempre disponível, sempre colorido das cores que escolhemos pintá-lo sem saber que o estávamos fazendo.



Escrito por clovisblog às 16h02
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Passarinhos

 

Na pequena cidade, os passarinhos começaram a desaparecer. Aflitos, os moradores enlouqueciam a sua procura. Não se ouvia mais o seu canto, não se percebia mais o fru-fru de suas asas, o ar estava totalmente limpo dos seus vôos...
O eremita, que há muito se refugiara na montanha, desceu até a cidade e reuniu as pessoas a sua volta. "Os passarinhos que se foram não mais voltarão. Misteriosamente, eles aprenderam a voar além dos limites; tornaram-se encantados, fluídos, translúcidos. E ganharam o direito de subir até onde a nossa imaginação apenas supõe. É possível que... eles nos esperam lá", explicou.
Para a Neusa, mãe do Fernando



Escrito por clovisblog às 18h13
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Dia do Professor

 Você chegará logo mais à escola e - seu eu o conheço bem - gastará um tempo no pátio, debruçando o seu olhar sobre aquelas crianças. Nenhuma delas é sua vizinha, ou brinca com seus filhos, ou já sabe que é você o novo professor, enfiado nesse jaleco azul claro.

Essas percepções não se aprendem na universidade, porque a Vida corre solta mesmo é nos pátios escolares, nas salas de aula, na hora da merenda... Portanto, para aprender a ser um professor será preciso sentir esse pulsar. Será preciso ser humano.

Na classe, que será somente sua naquele momento da aula, você pegará o giz branco em sua mão, consultará inseguro as suas fichas sobre a mesa, olhará mais uma vez os alunos inquietos nas carteiras - humildes, vindo de famílias de solidez diversas - e escreverá no quadro negro.

Em momento algum, toda a sua argúcia lhe proverá com qualquer certeza de que a sua mensagem foi recebida ou chegou ao destino naquelas mentes infantis. Será assim ao longo do ano: você disparará setas certeiras, mas não saberá se atingiram o alvo.

Imagine de quantas distrações se compõem aquelas 'cabecinhas de vento' sentadas a sua frente! Algumas crianças vieram para a escola sem almoço, outras vieram contra a própria vontade e outras, ainda, chegaram com a promessa de que na volta iriam nadar no riacho.

Talvez, o que seus alunos querem não está no livro grosso onde você estudou, e sabe de cor, e que é o seu porto seguro nessa maré educacional brasileira. Arrisco dizer que esses meninos e meninas querem, mesmo, é brincar de ser criança. Antes que sejam empurrados precipício a baixo.

No intervalo entre as aulas, você será posto à prova na Sala de Professores. É ali que se reúnem os deuses desse Olimpo escolar, crentes de que estão construindo um mundo. Seus colegas, profissionais que caminham diariamente sobre uma corda bamba, já terão construído para si uma fortaleza que impeça a entrada da 'artilharia pesada' trazida pelos alunos mais velhos, os veteranos.

E é de dentro desses muros que muitos mestres decidem qual será o melhor meio de entrar e sair ilesos das salas de aula. Eles irão propor a você as suas próprias descobertas... Essa será a maior prova pela qual deverá passar, ouvindo o que eles têm a dizer e ficar ponderando, ponderando.

Se você foi feito do material que eu suponho, correrá o risco de gastar o seu tempo de merenda entre os seus alunos, no pátio, comendo lanche com eles e ouvindo as suas prosas. É aprendizado certo! A indisposição obtida junto aos seus colegas professores você negocia mais tarde. Agora, é hora de aprender a ser.

Haverá datas cívicas, quando você será convocado a comparecer na escola. É feriado, mas será preciso acordar no horário de semana e seguir para lá. Sem o seu jaleco azul, é possível que você se torne absolutamente irreconhecível!

Por um passe de mágica, você se torna homem, não mais mestre. Sem a sua marca registrada cobrindo o corpo, os olhares de algumas alunas mudarão de aspecto. As garotas se tornarão lânguidas, suas vozes se amaciarão e você se divertirá percebendo isso tudo.

O altar da pátria, humildemente construído no canto esquerdo do pátio, resume em buquês de flores meio murchas e bandeiras um tanto amarfanhadas, a situação que cabe a você consertar com a sua jovem motivação e o seu seguro empenho de fazer o melhor. Sentimentos que devem despertar vivos em cada manhã.

Quando o hino nacional sair estridente de uma pequena caixa de som, e os pelos do seu braço se arrepiarem com aqueles toques marciais, está selada a certeza de que você foi escolhido por aquela escola e por aquelas crianças para desempenhar uma missão.

É por isso, meu filho, que também escolhi esse caminho de pedras pelo qual trilhei tantos anos. Eu também fui escolhido, não há como escapar. Quando me assustei no momento em que você decidiu repetir o meu feito, tornando-se professor, pedi aos céus que o fizesse passar por quase tudo o que passei. Daqui a algum tempo, teremos muitas histórias para trocar.



Escrito por clovisblog às 17h52
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