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Natal, serenatas e outras providências
Logo que chegava dezembro, era assim: a professora Glorinha Aguiar contratava um caminhão e iniciava preparar aquelas serenatas. No final da década de 1960, ainda tínhamos o coração à mostra e gostávamos de cantar. Ora, para obter verba de formatura para o Curso Normal do Instituto de Educação (que formava normalistas, talvez você não saiba o que é isso), a solução era 'vender' serenatas! Com a lista de canções e os muitos endereços nas mãos, e o caminhão estacionado em frente àquela casa maravilhosa da Av. Oscar Pirajá Martins, onde a professora morava, começava a faina após a meia-noite dos sábados de dezembro: subir para a carroceria o seu piano, o violino do Sr. Emílio Casline (um luxo!), os instrumentos da percussão, o Coral que a professora Glorinha coordenava no Instituto de Educação e nós, os adolescentes que gostavam de cantar. Entre eles o Luís Carlos Pistelli com o seu violão. Esquadrinhávamos a cidade na carroceria daquele caminhão musical. A melhor parte era que as pessoas se esqueciam de ter comprado a serenata e se emocionavam às lágrimas quando começávamos a entoar o White Chistmas... Esse grupo de seresteiros chegava sempre 'de mansinho' nas casas e o único som que quebrava o silêncio era mesmo o da primeira música, que fazia abrir janelas de toda a vizinhança, mostrando gente de pijamas de muitas cores saindo no sereno da noite, abraçados uns aos outros. Não éramos o Papai Noel descendo pela chaminé. Nós surgíamos luminosos na área da frente de sua casa ou por entre as rosas do seu jardim, entre partituras e harmonias vocais, cantando aquelas canções de Natal que a sua criança interior sabe de cor. Que sorte nós tivemos! Conseguimos aproveitar o finalzinho dos melhores tempos gentis. Hoje, eu não sei mais o que se faria para emocionar as pessoas nessa época de festa. Quem sabe aparecer com um grande, caro e brilhante presente, cantarolando o seu jingle publicitário que afirma ser de última geração e que tem garantia de cinco anos contra defeitos... Logo mais, estaremos vivendo o último ano da primeira década desse novo século. Às vezes, eu penso que é um gesto natural avançar em direção ao futuro, procurando manter essas lembranças bem acorrentadas no passado. Porém, em outras vezes, eu duvido da sanidade dessa decisão. Vamos nos dissolvendo, nos dividindo e nos espalhando pelo correr dos anos; e chega este momento em que não sei mais quem sou. Tenho a impressão de que o espírito de Natal é aquele sentimento que chega somente no final de um ano duro, espinhoso, para renovar em nós todas aquelas esperanças que são paulatinamente destruídas no restante dos meses. Talvez, o espírito de Natal esteja naquele espaço impensado entre o conteúdo da vitrine e o nosso coração infantil. Você sabe onde é. No entanto, somos habilidosos em substituir esse sentimento precioso pelas preocupações com os assados que estarão sobre a mesa e com a lista de presentes a providenciar. Nem imaginamos que ainda possa haver milagres nesses nossos dias. E será uma surpresa se, de repente, ouvirmos música vinda de fora da casa, quem sabe na área da frente, ou por entre as rosas do nosso jardim.
Escrito por clovisblog às 10h13
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Dias assim, antes do Natal
Chegará o dia em que você será abandonado por todos os que sempre estiveram a sua volta. E ninguém o preparou para isso. Desde sempre cultivamos palavras como 'compatilhar', que tem um significado apaziguador porque a constatação da solitude pode arrasar com as nossas esperanças de futuro. A perspectiva de solidão instala em nós um imediato pânico de que estaremos sozinhos no momento final de nossas vidas, sem aquela mão amiga nos segurando um pouco aqui, ao mesmo tempo em que nos apoia a seguir o último caminho. Porém, mesmo antes desse momento seremos abandonados. Nossos filhos não mais buscarão os nossos conselhos, nossas amantes não mais desejarão o nosso corpo, e até a própria Vida vai aos poucos nos abandonando ao permitir o desgaste inexorável do viver. Apenas não queremos olhar para um quadro assim, porque é mais confortável viver essa deliciosa ilusão de infinitude que experimentamos. Nosso trabalho não será mais procurado, nosso riso não interessará a mais ninguém e a nossa sensibilidade - que tantas vezes encantou a tantos - perecerá por falta de colo que a embale. Olharemos no espelho e haverá apenas um reflexo. Daí, correremos em busca do que foi gravado ao longo desse tempo feliz, em que nos acreditávamos rodeados de gente por todos os lados. Retrocedendo e avançando no índice das gravações, constataremos, então, que desde sempre estivemos sós! Nossos filhos foram gerados e entregues à Vida (portanto, participamos desse construir), nossas amantes amavam a si mesmas buscando o nosso Amor (então, criamos amor genuíno). E a Vida foi negociando conosco a Sabedoria em troca da juventude: quanto mais sábios nos tornamos, mais completos de nós mesmos ficamos. Certas gravações, quando revistas, nos informarão que o nosso trabalho impulsionou a Roda do Universo, que o nosso riso fez mais leve um sem-número de almas que precisavam ouvir esse som alegre, em contraposição à dor. E ficaremos sabendo que foi a nossa sensibilidade que transformou humores, iluminou recantos escuros do espírito e - quem sabe - abriu portas que andavam trancadas por dentro. Devemos, assim, aproveitar esse tempo tão bom de final de ano para não permitir que a nossa ausência produza a solidão nas pessoas a nossa volta. Não é um misterioso personagem invisível que tira do breu os componentes da solidão. Ela não é criada no berço dos planetas e posta na órbita de cada ser humano que transita pelo Cosmos. A solidão dos homens é instituída aqui, no amargor das desavenças, na cegueira da incompreensão, na absurda decisão pelo preconceito. Talvez, esse seja o tempo de polir e fazer brilhar as nossas melhores crenças. Como esta que transforma os dias mais duros, as semanas mais árduas e este mês inteiro numa grande brincadeira para entreter essa nossa criança interior - o Natal.
Escrito por clovisblog às 11h31
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Aqueles dias
O dia está, assim, com aquela cor sépia de fotos antigas. O início dos anos 1970 guarda essa magia de tudo o que já ficou no passado e é dela que Anton sobrevive. Naquele tempo, agora, ele sobe lento a Praça Armando Salles em direção ao Banco Itaú. Na coincidência dos fusos horários, ele se encontra com Ceres e seus olhos azuis, entrando na Caixa Federal. O dia está ganho porque o coração de Anton acaba de receber a sua colherada de mel, que adoça a alma e vai constuindo em sua personalidade esse saber quando estou sendo feliz, desmesuradamente feliz. Nada fora desse pequeno universo individual tem essa cor e esse som e esse sabor. Poder tocar e não poder levar, poder sonhar e não poder confessar o sonho.
Escrito por clovisblog às 14h51
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Da Ortografia
Já pensou pôr um acento circunflexo sobre a letra u? Estou lendo aqui no jornal que um francês chamado Thierry Thieû Niang tem esse acento sobre o u de seu segundo nome. Ele é diretor e ator teatral e está no Brasil para apresentações. Eu tive uma professora que entraria em surto psicótico instantâneo se me pegasse fazendo isso em sua aula! Com a tal globalização, ficamos conhecendo uma montanha de nomes e palavras novas cheias de consoantes sem nenhuma vogal no meio, que obriga qualquer um a dar nó na própria língua na tentativa de pronunciá-los.
Escrito por clovisblog às 13h06
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Atílio
Ouça agora o Clovis
Foi na minha adolescência que conheci o Atílio Gallo Lopes. Acabei entrando no grupo de teatro organizado e mantido pela professora Vera Gomes, o TESS-Teatro do Estudante Secundário Sanjoanense, na década de 1960. As reuniões aconteciam no teatro que havia na rua Professor Hugo Sarmento e que hoje dá lugar a uma auto-escola. Todo o mundo em redor era efervescente, a psicodelia hippie da Inglaterra, a liberdade sexual (que nunca chegou mesmo por aqui), o poder de cada um para se expressar como quisesse e depois ser deportado ou preso... E, em meio a isso tudo, estava o meu deslumbre de menino muito recluso que ganhara o direito de sair à noite de casa e compartilhar os movimentos do TESS e seus integrantes geniais, criativos, muito "antenados" com tudo o que se movia na Arte e na Cultura brasileiras. Eu simplesmente adorava zanzar pelos bastidores daquele teatro, suas fiações elétricas dependuradas no teto, os muito cartazes espalhados pelas paredes, as escadas de madeira que levavam ao palco, os camarins... e poder observar a platéia a partir de dentro da cena.
Entre os integrantes do grupo, havia o Atílio. Belo, antes de tudo, pele e olhos claros, uma intensa vitalidade sempre disponível a qualquer experiência, um corpo flexível que o fazia meio que flutuar por onde estivesse. Era um dos atores mais prezados pela professora Vera. Ela o admirava muito, isso ficava transparente. Nós todos o admirávamos, porque claramente ele não fazia parte do que éramos - ele estava muito lá na frente como ser-humano-divindade. Em muitas mentes, até hoje ecoa a sua criação do personagem Pluft, da peça infantil de Maria Clara Machado. Foi um acontecimento marcante não apenas para o TESS, mas para toda a cidade tal o desprendimento e o talento do Atílio em se transformar no Pluft. Depois, o tempo passou. Deixei de participar do grupo. Como fazer teatro era a matéria dos sonhos do Atílio, ele também não coube mais em sua cidade natal e se foi para Londres. Sua luz iluminou diversas plateias, fiquei sabendo. Luz intensa, como só quem é ser-humano-divindade tem e sabe distribuir. Por aqui, ficou um ponto cego, sem luz.
Escrito por clovisblog às 14h51
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Biografia
-um sonho: manter a minha motivação na vida, mas ela já está ficando com as cores um pouco esmaecidas. -criar: um Centro de Busca da Felicidade. -um (a) grande artista: Michelangelo Buonarotti. -um filme: The Matrix, Ao Mestre com Carinho. -uma grande atriz: aqui Fernanda Montenegro; lá Meryl Streep. -um grande ator: aqui Paulo Autran; lá Sir Anthony Hopkins. -um lugar: o interior do Inconsciente. -uma imagem: um olhar que recebi em meio a muita gente, muita movimentação, em plena década de 1990, e que criou imediatamente uma conexão que dura até hoje e que será para sempre. -uma saudade: meu pai. -um sabor: o primeiro strogonoff, comido em 1969 na residência do Dr. Raul Andrade, junto com os colegas do grupo teatral TESS-Teatro do Estudante Secundário Sanjoanense, que era dirigido pela Profa. Vera Gomes. -uma viagem: as idas da família a Santos na década de 1960. -um momento especial: entregando troféus de Melhores aos meus alunos de teatro (Externato Santo Agostinho) no CIC Santo André superlotado de gente, em 1977. -um (a) grande amigo (a): nós somos os nossos melhores (e piores) amigos. -o pensamento que te guia: “Só pode falar de dor quem está sangrando”, de Geraldo Vandré. -os primeiros exemplos: gostaria de ter nascido músico; talvez eu me arriscasse a ser um maestro, como o foi Ray Conniff. -trabalho (s) que mais te deu prazer em realizar e por quê: a montagem de “Enquanto Houver Espetáculo”, com poemas de Cecília Meireles. Como ele, meu grupo de teatro amador Cena IV abriu a 1ª Semana Guiomar Novaes, um enorme sucesso, devastador. De todos nós, Suia Legaspe e Aída Cassiano são destaques até hoje na área artística da capital do Estado. -o (a) maior mestre (a) e por quê: vou trocando de mestre continuadamente; em cada área de minha atuação elejo um novo e o respeito profundamente, ele me ensina e eu me torno eternamente grato pelas lições. - uma grande emoção: já tive algumas, mas elas castigaram o meu espírito por sua intensidade; daí passei a não querer mais sentir grandes emoções. No entanto, algumas composições musicais driblam essa vigilância em me arrancam lágrimas de pura e intensa emoção a qualquer momento do dia, em qualquer lugar. A sensação que tenho nestes momentos é de que a Vida pode valer a pena. - um medo: a solidão pode ser boa e pode ser má! Tenho medo da solidão que castiga. - seu trabalho como fotógrafo: já não tenho disponibilidade vital para fotografar como fazia antes. Era muito bom e gratificante. Lembro-me de uma série em P/B realizada na Fazenda Cachoeira, década de 1970, com Zeza Freitas. Muita gente a considerou de excelente qualidade. Mas, as fotos e os negativos se perderam. - e o teatro, acabou para você? Sim, o teatro acabou para mim; às vezes penso que nunca gostei muito de teatro; é trabalhoso fazer, é difícil administrar o grupo da montagem; acho que este é um trabalho de escravo, de onde se sai cansado, com as energias gastas e sem muitas compensações. Não acho que o teatro valha a pena. E quando vou assistir a montagens teatrais, fico muito tenso com medo dos atores esquecerem as falas, das luzes não se acenderem no momento exato, da cortina não se fechar no final. Um dos resultados da minha incursão pelo teatro é a extinta Oficina de Arte, uma escola de iniciação teatral que fez muita gente gostar de teatro, promoveu diversas apresentações em praça pública e colaborou para o descobrimento de talentos sanjoanenses como Cristina Colla e Marli Silva. Outro produto é o livro "Como Organizar Teatro em Sala de Aula", de edição própria. - A passagem pelo rádio: me tornei radialista porque fui morar em Mogi das Cruzes e precisava muito arranjar trabalho; então menti que já era locutor e ganhei de cara um programa diário. Foi uma luta para adestrar a minha voz, a entonação, aprender a respirar... Paguei consulta para uma fonoaudióloga (Selma Bertolli) e ela me deu dicas preciosas. Quando voltei a São João trabalhei por anos na Rádio Mirante FM; tinha os meus fãs, gostei demais do trabalho, recebia todos os discos de sucesso, conseguia “lançar” músicas aqui que estavam no fundo de muitos LPs e que outros DJs não se arriscavam. - seu trabalho como escritor: gosto muito de escrever; às vezes penso que nasci para isso. Tenho percebido que desenvolvi um estilo próprio, que gosto muito, fruto de anos de suor sobre um papel em branco. Mas tenho auto-crítica muito severa, me envergonho de textos que acabei de escrever; muitos deles eu escondo do público. Não é bom um texto que extrai de imediato uma emoção do leitor. Penso que para se escrever bem é preciso muita concentração, foco; e que para se escrever muito bem é preciso entrar em transe! - você ainda compõe? Não componho mais canções. Sempre me digo que quando aposentar vou me tornar um músico... promessas, promessas. - suas andanças pelo cinema: não ando nem entrando em cinema. Vejo filmes pela TV e, mais recentemente, arrisquei uns filminhos com a câmera fotográfica, mas destes não gostei muito. O período maravilhoso com o Sr. Dilo Gianelli foi o bastante. Passou e deixou ótimas lembranças. O Sr. Dilo era genial. - sua vida de jornalista: é muito ativa. Escrevo muito, todos os dias, as pessoas me lêem e eu fico muito inseguro com isso. Sou muito grato por poder escrever como se fosse um jornalista – formação acadêmica abortada na adolescência por falta de recursos financeiros. Já passei por quase todos os jornais da cidade, seja como colaborador ou funcionário. O problema é que escrevo com intensidade e critério literário, isso desgasta, dói. Escrever dói. - o que falta para você realizar? Falta tudo! Quero escrever um musical de sucesso, um livro best-seller, uma canção eterna, quero um programa do tipo talk-show na TV, um programa de rádio nas madrugadas, quero fazer uma novela de rádio como aquelas antigas... Quando terei tempo e disponibilidade para isso? - desafios: sim, manter-me vivo, manter-me emocionalmente são, manter-me de bom humor, manter-me interessado na vida. - Uma mensagem para São João: melhor que não! Se o fizesse, seria um grito que só interessa ao ouvido de quem grita. A cidade já trata bem essas áreas do meu interesse. A cidade me recebe bem, me trata bem, me tolera muito bem, obrigado!
Escrito por clovisblog às 17h16
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Alguns fantasmas
Ouça agora o Clovis
Ali, no primeiro piso do Theatro Municipal de São João sobrevivem fantasmas que dão um charme especial àquela casa. Alguns são atores e atrizes que passaram por aquele palco há muito tempo; adoraram a experiência e a receptividade do público e resolveram voltar, depois da morte. Ficam por lá, flanando, repetindo as suas falas, desta vez com muito melhor entonação (coisas que o tempo lapida). Outros vultos são de expectadores, gente que se sentia melhor na plateia do que em casa, suportando um casamento desastroso, embora útil. Estes não sobem aos pisos superiores: rodam vezes e vezes por entre as poltronas, entram e saem das frisas laterais projetando na rotunda cenas imaginárias das muitas peças teatrais a que assistiram. São amantes de teatro. Coordenando todo esse povo vaporoso, estabelecendo horários para esta ou aquela aparição, está o fantasma severo de Ida Vita. Quem hoje tem mais de 50 anos se lembrará dela. Sob uma tênue luz pendurada no teto do final do primeiro piso, ela vendia balas Chita e outras guloseimas baratas que todos nós crianças podíamos comprar. Eu tinha muito medo dela. Parecia que ela estava sempre no final de um corredor funesto, como se fosse um local proibido de ir porque o risco era muito grande. Suas dezenas de rugas transformavam o rosto em uma máscara que eu preferia não ver... mas não havia como evitar, pois adoçar a boca significava encarar a Dona Ida, como que em cena iluminada pelo próprio Alfred Hitchcock... Parecia que ela não vendia muito dos produtos dispostos a sua frente, em uma mesinha exígua com cadeira, onde perfilavam potes de vidro cheios de doces e pratinhos com outras delícias. Sua irmã ficava ao seu lado, alguma vezes. Dona Ida ficou tanto tempo fazendo isso no Theatro que - é claro - preferiu permanecer nele do que zanzar pelo cemitério polindo diariamente o mármore do seu túmulo. Ela é, mesmo, a fantasma-chefe do prédio. William não confessa, mas todos temos a certeza de que ele a percebe quando está em plena faina da manutenção do seu adorado Theatro Municipal. Ele é um sujeito discreto e acha que é melhor não mexer com aquilo que está suspenso no ar... além de cortinas, bambolinas, varas de iluminação e outros elementos. Hoje, quando entramos naquela casa para ver ou ouvir o artista que está no palco, todo esse pessoal translúcido permanece no mais sepulcral silêncio, respeitando o cantor ou o ator em cena. Porém, todos sabemos que pelo menos alguns fantasmas estão por ali assistindo sempre, aplaudindo em cena aberta ou ao final de um agudo bem trinado. São gente muito boa, sabem apreciar a fina Arte.
Escrito por clovisblog às 12h54
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Vernissage
Os vernissages de José Marcondes são situações muito boas de se vivenciar. Cada um tem o gosto de encontro de amigos que moram no mesmo quarteirão e resolveram beber um pouco de Arte no bar da esquina. Marcondes me confessa que ele mesmo fica um pouco apreensivo em seus vernissages, mesmo depois de tantas exposições produzidas. Ele diz que sempre tem um convidado - que ele nem sempre conhece muito bem - que vai para analisar as cores, as pinceladas, os temas... e talvez comprar. O pintor veio até a redação do jornal O Municipio trazer umas fotos para publicação e, sentado à minha frente, olha para um grande quadro de Ro Gonçalves, que a Vera Oliveira comprou faz tempo. Este quadro está em uma das paredes da sala que ocupo atualmente. O pintor está muito à vontade na poltrona de madeira e gobelin, admirando esse quadro em tons terrosos, uma bela mulher com um chapéu, seus cabelos esvoaçam, ela segura um buquê de flores (talvez sejam rosas). Eu fico pensando que ele está nesse momento decifrando as pincelas de Ro Gonçalves e adivinhando a mistura de cores... O tempo que a nossa amizade tem permite que o pintor converse comigo muito descontraído, contando coisas de um passado recente, suas exposições no Centro Recreativo Sanjoanense, as que faz atualmente na Galeria Papyrus... E vai me recitando o seu modo de entender a pintura, e o seu jeito de pintar, que o crítico de Arte Emanuel von Lauenstein Massarani eleogiou em uma publicação, há alguns anos. O artista sai um pouco do breve êxtase que o quadro de Ro promove nele e comenta comigo sobre um desses visitantes de vernissage, com o qual manteve um breve e divertido diálogo. Ele contou que o tal sujeito ficou muito tempo parado diante de um de seus quadros (mas ele não contou qual quadro nem quem foi o personagem da conversa). O visitante olhou a pintura de Marcondes por todos os ângulos que o espaço da galeria permitiu. Afastou-se um pouco, voltou a se aproximar, apertava os olhos em certos momentos... Nesse ponto, o pintor já dava como certa a compra (era um tempo em que ele precisava mesmo vender seus quadros, para garantir a qualidade de vida dele, da mulher e das filhas, conforme ele mesmo confessa). Muito bem, ao final da longa análise, e com o Marcondes ficando ali por perto - como fazem alguns vendedores de lojas - o sujeito chamou o pintor. O artista se aproximou feliz, por finalmente ter encontrado um cliente que também conhecia a pintura e suas nuances. Pronto para responder a todas as perguntas do comprador em potencial, Marcondes ouviu: "Muito bonita essa moldura; onde o senhor mandou fazer?"
Escrito por clovisblog às 14h10
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Muitas histórias
Ouça agora o Clovis
Saio da Av. Dona Gertrudes e desço até a rua Getúlio Vargas para ver a exposição de quadros do Marcondes, na Galeria Papyrus. Quando vou cumprimentar a Lúcia, sempre brincalhona e gentil comigo, percebo que ela está conversando com o pintor Ronaldo Noronha. Fico muito feliz com esse encontro, porque é rara essa oportunidade de falar com o artista ao vivo. Quando pergunto a ele quando será a sua próxima exposição, revela que será agora, no mês de agosto. Daí em diante, ele se mostra um ótimo contador de histórias. Entre as muitas que ouvi com extremo prazer, fico sabendo que ele fez muito rádio-teatro na Rádio Tupi de São Paulo, décadas atrás. Ronaldo conta que trabalhou com muita gente famosa do rádio brasileiro: Lima Duarte, Cassiano Gabus Mendes... E se lembra de muitas confusões com trilhas sonoras inseridas em hora errada, por seus companheiros. Só de relembrar, ele ri tudo de novo! Ele disse que entregou à sua filha Fafá um punhado de scripts radiofônicos, que ela utilizou em sua defesa de tese. Preciosidades, é claro. Depois que eu digo que essa história de rádio-novela está mesmo no sangue da família, Ronaldo confirma que seu irmão - Fábio Noronha - foi um pioneiro neste assunto, na Rádio Difusora, hoje Piratininga. Quem tem mais de 50 anos se lembra muito bem. Ronaldo diz que tinha combinado escrever com ele um livro com as muitas e saborosas histórias daquele tempo. Quem sabe um bom biógrafo não resgata tudo isso e edita um volume cheio de causos... E foi assim esse encontro; a cada "arrancada" que eu dava para voltar ao trabalho, Ronaldo segurava em meu braço para contar mais uma história. Não tenho boa memória e lamentei não ter comigo ali o gravador que uso para entrevistas no jornal O Município. Então, ficaram gravadas mais no meu espírito essas muitas histórias que ouvi do pintor. Quando o Francisco, dono da Papyrus, chega à nossa conversa, aproveito para ver as pinturas do Marcondes. Impressiontante! Destaco duas delas que você precisa ver: uma luta de dois homens no Oriente Médio e uma mulher catadora de entulho. Quando volto ao convívio dos amigos, o Ronaldo está testando o Francisco com uma história enigmática de elevador... Aproveito e conto uma piada de garçons, que deixa os dois amigos rindo a valer, enquanto saio de fininho, lamentando ter de abandonar essa conversa tão saborosa.
Escrito por clovisblog às 10h33
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Márcio Donizetti Ferrare
Ouça agora o Clovis
No Natal de 1970, eu fui levado a uma festa no escritório do Sr. Veldo Westin que marcaria de modo indelével a minha vida. Foi a partir daquela festa que me apaixonei pelo Natal e suas circunstâncias. Zeza e eu éramos namorados recentes, ela trabalhava naquele escritório. Ali também conheci amigos do tipo "para sempre", com os quais convivi e convivo até hoje. Naquela festa, o Márcio tinha 15 anos. A nossa amizade nasceu instantânea e passamos a frequentar as casas um do outro: eu na Cons. Antonio Prado, ele na Cezário Travassos. Os LPs de Ray Conniff e os de Johnny Mathis fizeram a trilha sonora do nosso convívio. As serenatas pelas ruas de São João também proporcionaram muita trilha sonora. Era muito bom ficar na rua depois da meia-noite pondo canções em vitrolas para as namoradas ouvirem. No primeiro semestre de 1971, essa amizade ficou bastante fortalecida, nós tínhamos muito em comum como o gosto musical, por exemplo. Eu trabalhava na extinta Comissão Municipal de Esportes (praça Armando Salles) e o Márcio no escritório (rua Marechal Deodoro). Eu acabara de ganhar um carro (Dauphine) de meu pai e o Márcio me ajudou a treinar a baliza para o momento de "tirar a carta" de motorista: nós íamos até um espaço que havia próximo à rua do cemitério e ele ficava incansavelmente me ajudando. Por circunstância de minha formação, sempre fui muito caseiro, confinado em meu quarto, não tinha predileções extravagantes além dos discos; a vida do Márcio pontuava de novidades a minha vidinha boba. Sem ele saber, pautava o meu dia e eu ficava muito feliz com tudo aquilo. Quantos sábados ele apareceu de manhã em casa, me acordando e colorindo tudo com a sua intensa alegria e vitalidade. O desafio que um impunha ao outro, era aparecer com um disco novo do Ray Conniff (eu) ou do Johnny Mathis (ele) para o susto do outro. Sem o menor senso crítico musical, nós nos deleitávamos com aquelas canções e vozes. Muito auditivamente marcante. Destaco a canção "Come Saturday Morning" com a principal lembrança auditiva, que detém toda a significação de nossa amizade. Daí, como acontece mesmo, a Vida e o tempo nos afastou um do outro a partir dos anos seguintes da década de 1970. Anos depois, o Márcio casou, teve filhos, foi trabalhar na FAE (hoje UniFAE). Eu me tornei radialista, redator de jornal, professor de Língua Portuguesa. Continuei solteiro. Essa avalanche que se chama Vida nos levou por direções diversas, mesmo morando na mesma cidade. E ficou difícil uma reaproximação com o Márcio e aquele universo que tínhamos criado juntos. Cada um na sua. Distantes, mas com a amizade viva, é claro. Por telefone vivíamos nos prometendo uma reunião musical... nunca aconteceu, na verdade. Hoje, logo mais às 16h30, vou até o velório para o sepultamento do Márcio. Um câncer bucal o levou desta vida para uma outra melhor (como queremos acreditar). Ficam sua esposa, seus filhos, seus irmãos, seu pai... Ele vai ao encontro da mãe, que padeceu do mesmo mal e já havia sido levada anos antes. Diante dessa realidade, eu percebo como a minha vida tem sido pequena, circunscrita em poucos eventos e ações. Em mim, toda a atividade acontece no nível do mental, do pensamento. Ouvir a orquestra de Ray Conniff ou a voz de Johnny Mathis será trazer de volta as melhores lembranças de minha vida adolescente. Foi muito bom ter conhecido o Márcio. Foi bom, mesmo.
Escrito por clovisblog às 12h07
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Barbra & Omar
Vê esta solidão que desgasta a minha superfície e expõe do que sou feito? Vê esta falta de querer amar, de querer ser feliz? É o resultado de maus hábitos. Você e o do que você é me acostumaram muito mal. Bastava o seu olhar e eu me sentia visto. Bastava você existir em meu mundo, para o mundo existir ao meu redor. Eu sabia que você estava, eu sabia que você era e era o que me bastava. Você era o bastante. O que era em redor não me importava, nem existia. Eu aprendi o som da sua voz, o alcance do seu braço, eu aprendi o seu amor que envolvia muito de leve a vida que eu tinha. "Eu te amo porque você me fez sentir bonita... me faz sentir bonita", disse Barbra Streisand a Omar Shariff no filme Funny Girl.
Escrito por clovisblog às 18h17
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Em nossa memória auditiva
Este terceiro milênio é o Paraíso dos saudosistas. A internet instaurou definitivamente o Nirvana dos nostálgicos ao permitir que um passado musical esteja disponível ao toque de um dedo.
Antes relegada a um triste ostracismo, essa gente bacana pode ouvir novamente todas as músicas que foram trilha sonora de momentos importantes de suas vidas. Basta desejar!
Todas as sonoridades, de todas as décadas do século passado, estão de volta: de uma orquestra cujo maestro se chamava Percy Faith ao sanjoanense Almir Ribeiro, cujos discos eram uma raridade e agora podem ser comprados na rede mundial.
Sim, estou defendendo os saudosistas porque – naturalmente – faço parte do time. Reviro a internet em busca de CDs da orquestra de Ray Conniff e tenho encontrado muita coisa boa. Durante décadas, amarguei a vontade não satisfeita de ouvir tudo o que o Maestro havia gravado.
Uma das saídas era comprar discos importados, quando isso era possível. Depois, comecei a explorar os amigos que seguiam viagem aos Estados Unidos: “Virgin” é o nome de uma loja em Nova Iorque, onde se encontra de tudo do universo da música.
Porém, antes de esse empenho ser necessário, quem supria o gosto musical do sanjoanense era aquela loja de discos que havia no início da Avenida Dona Gertrudes, a Anfe. Misturando peças automotivas com discos 78 RPM, a Anfe deixava o cliente satisfeito e era única na cidade e região.
Minha via sacra pela loja começou nos anos 1960, quando para lá eu corria em busca dos compactos simples de Chico Buarque cantando “A Banda” ou de Caetano Veloso defendendo a sua “Alegria, Alegria”. Por detrás do balcão, havia sempre o sorriso da Ditinha Maltempi, que conhecia todas as novidades e podia indicar com segurança quando o disco era bom.
Quantos LPs de Ray Conniff eu comprei ali! Na década seguinte, me tornei freqüentador assíduo da loja, sempre ansioso por novidades. Ainda tenho aqueles discos todos, um pouco empoeirados, detendo uma qualidade sonora que – dizem – é inigualável.
Em 1972, quando o Ray Connif lançou o LP Love Theme from Godfather, eu trabalhava como office-boy no Banco Comercial Brasul, que ficava ali onde hoje está a Bernasconi. Não existem mais office-boys, não é? Tampouco, aquele Banco. Mas naquela função eu rodava a cidade sobre uma bicicleta, entregando correspondência e cantarolando as canções daquele disco.
Sim, a trilha sonora da minha década de 1970 foi orquestrada pelo Maestro, no tempo em que o assobio substituía os tocadores de MP3!
Hoje, a Anfe Som passou para a História. No entanto, enquanto existiu foi persistente: o Sr. Miguel Jorge Anfe (o “seu” Michel) a inaugurou no ano de 1949 misturando confecções, instrumentos musicais e escapamentos de automóveis naquele espaço onde está a sorveteria Chamonix.
Somente em 1960, é que a loja foi para a Av. Dona Gertrudes . E ali ficou até o ano de 2005, causando boas impressões em nossa memória auditiva.
Disco de massa, LP de vinil, CD de plástico e chip de silicone... Essa revolução do suporte musical vem sendo acompanhada de perto pelos amantes sanjoanenses da música mundial. O que virá pela frente? A resposta ainda é um mistério tecnológico que, com certeza, vai surpreender.
O que não muda – graças aos céus! – é o talento humano capaz de criar milhares de canções diversas a partir de apenas sete notas musicais.
Escrito por clovisblog às 14h14
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Ah, o Celso
Há uma canção que o Celso dizia ser a "sua" trilha sonora. Estou ouvindo-a agora: The Right Thing to Do, com a Carly Simon. Depois eu soube que, na verdade, era a "trilha sonora" de uma das namoradas do Celso. Ele era um sujeito muito intenso e deve ter pegado para si o tema como forma de agradar a garota e de se sentir mais próximo dela. Naquele tempo, eu não considerei a música assim tão boa. Eu só ficava olhando, tentando decifrar aquele namoro proibido e tão musical. O Celso tinha uma parede inteira de LPs diversos, de Roberto Carlos a Frank Sinatra passando por Sérgio Mendes e uma orquestra chamada Percy Faith, que ele mantinha no "nosso cantão". Era um bar muito simpático que ele montou perto da piscina de sua residência. Hoje, nem mesmo a casa do Celso existe mais. Parte da transição da minha adolescência para a idade adulta eu passei ali, organizando aquelas centenas de discos. A carreira de locutor do meu amigo e patrão fez com que ele se apaixonasse por música e discos. Mas era bastante desorganizado e misturava tudo com wisky, quando atravessava madrugadas no "cantão", curtindo nostalgia e um pouco de solidão. Aquela sua namorada era nossa colega de escola. Eu me sentia profundamente perturbado quando precisava improvisar uma desculpa qualquer que justificasse a ausência dos dois ao mesmo tempo em certos lugares. Ou quando nós três viajávamos e ela ia posando de namorada dele. Parece que eu seria descoberto na mentira e que levaria uma surra por isso. Minha colega era muito esperta e muito "descolada" como se diz hoje. Embora ela tivesse idade próxima da minha, parecia ser mais adulta, mais "safada" mesmo (e peço desculpas pelo termo)... De anjo, ela não tinha nada! É uma das pessoas que eu mais gosto na vida. Ela tem uma jeito de ser que impressiona, parece sempre muito viva, intensamente viva. Desejar que o Celso volte não é opção. Faz tempo que ele faleceu, levando consigo muitos segredos obtidos através da profissão. Sua parede de discos também desapareceu. Bastou que o meu amigo fechasse os olhos, para que o seu "cantão" fosse aberto à ganância de muitos, que dividiram entre si esse raríssimo espólio de vinil. Ainda tenho comigo alguns dos muitos discos que o próprio Celso me deu. Alguns são raridades, outros nem tanto. Passado todo esse tempo, agora sim, aquela canção se tornou o tema musical do Celso.
Escrito por clovisblog às 10h54
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O outro lado
Eu me lembro. Foi assim: em uma noite de 1977, Clícia Martarello, Zeza Freitas e eu entramos no Cine Avenida (ele não existe mais em minha cidade). O título do filme a que fomos assistir já era conhecido por causa do livro de Sidney Sheldon "O Outro Lado da Meia-noite". As luzes do cinema se apagaram e a cena abriu. Era um grego visitando de barco uma prisão localizada em pleno mar. A música! A música de Michel Legrand começou junto com essas cenas e foi me fazendo afundar na poltrona. Nunca, em situação cinematográfica anterior, eu fui tão atingido pelo som de uma canção! Mesmo sem assistir ao filme (que estava apenas começando) eu, ingenuamente, exclamei baixinho: "Uau! Que filme fantástico!". Era, mesmo, um engano. A película não sobreviveu à passagem do tempo. Mas, a música... Até este exato momento, passei a vida assobiando o que lembrava da melodia. Agora, que a obtive inteira, com seu compositor a executando ao piano, percebo que o filme era a música. Insinuante como a personagem Noelle Page, com meandros surpreendentes iguais aos criados para ela por Sheldon. Como eu mesmo disse, certa vez, esta música tem DNA humano em sua composição. A identificação precisa com conteúdos de algum recôndito emocional meu, a certeza de que "eu já sabia" essa canção, não deixa dúvida: o Tema de Noelle foi criado com DNA humano de grande qualidade e promove um reencontro de "coisas" emocionais que estavam desencontradas... A palavra "coisa" já diz da minha incapacidade de escrever palavra melhor da nossa Língua, mas talvez ela exista. Por estar aqui nostalgiando, por estar buscando a precisão do que estou sentindo para realizar tentativa de me expressar... nestes tempos, estou vivendo o meu outro lado da meia-noite. O tema musical eu já tenho...
Escrito por clovisblog às 09h30
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A vida numa pauta musical
Minha adolescência aconteceu em meio a audições de Gershwin, Ravel e Debussy. Tenho a impressão de que tudo o que escrevo pretende ter aquela leveza da música impressionista. Pretensão apenas, não agride ninguém. As tardes eram gastas com o Claudio Richerme e seus LPs daqueles músicos. Nós ouvíamos a sucessão indefinível de acordes garimpados sabe Deus onde pelos compositores e o impacto em nosso espírito era certo. Passamos a ver e ouvir a Vida de outro modo, com mais Impressionismo. Claudio nos supria de informações imprescindíveis sobre aquela música mágica. O resto do dia, era assobiar aqueles sons cheios de imagens. Parece que tive, sim, uma adolescência melhor que a de muitos meninos. Como se ela fosse escrita diariamente sobre uma pauta musical... eu vivia auditivamente.
Escrito por clovisblog às 15h31
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